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Leonor Poeiras

Convidado José Luis Peixoto

Do latim crudu-, o que permanece no seu estado original: directo, intacto, verdadeiro.

Há um momento em que tudo o que foi construído cai. Fica o que sempre existiu.

Cru nasce desse lugar.

Num contexto contemporâneo marcado pela inteligência artificial e pela crescente automatização, o trabalho de Leonor Poeiras afirma um regresso à presença humana, à imperfeição e à materialidade. Depois de duas décadas nos media, num território de construção, ensaio e controlo da imagem, emerge aqui uma prática que procura o contrário: o que é imediato, físico e não mediado.

‘Interessa-me o que sobra quando a construção cai.’

Inscrevendo-se no campo do expressionismo abstracto e do color field, a sua prática centra-se no gesto, no tempo e na relação direta com a matéria. Pinta maioritariamente sobre pano cru, um suporte que absorve e fixa, preservando a porosidade e a resistência da superfície. A tinta infiltra-se, mistura-se com cal — matéria viva que reage, respira e transforma — criando superfícies instáveis, que se abrem e se fissuram.

Nos trabalhos em papel, há um regresso ao essencial: pintar como quem ainda não aprendeu as regras, com a liberdade do impulso. Os textos originais do escritor José Luís Peixoto, inscritos nestas obras, prolongam esse território sensível entre palavra e matéria.

Cru é despojamento. Sem ornamento. Imperfeito e real.

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